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Uma força chamada Exemplo

Às avaliações morais, éticas e religiosas a respeito das condições da sociedade, dos atos coletivos ou pessoais, os filósofos denominam juízos de valor. São eles os responsáveis pelas apreciações que fazemos de ações ou condições boas ou más, certas ou erradas, legais ou ilegais, morais ou imorais.

Essas avaliações subjetivas, condicionadas pela cultura em que o indivíduo foi criado ou pela religião que professa, tornam possível a ética que, ao lado da religião e da estética formam os três sistemas básicos de valor. A religião participa efetivamente no estabelecimento de valores, mas é a lei que, em certo sentido torna oficiais e obrigatórios os valores que adotamos. As concepções de valor são numerosas uma vez que muito de filosofia envolve a questão.

Numa intolerável inversão de valores, verifica-se hoje, pessoas que deveriam merecer o repúdio da sociedade, aparecerem para disputar aplausos. O trampolim da ascensão social tem, muitas vezes, sido usado como fachada para ocultar atividades ilícitas, criminosas, imorais.  

Indivíduos nocivos à sociedade, mas que sabem manipular com habilidade os meios de comunicação, têm seus nomes nas primeiras páginas dos jornais, nas manchetes dos telejornais e freqüentam até capas de revistas.

O destaque dado, por exemplo, a bandidos e a transgressores mostra que estamos promovendo delinqüentes em heróis. Homenageia-se quem não faz jus a homenagens, cobrem-se, às vezes, até com a bandeira nacional caixões de demolidores da ordem e da moral, cujos funerais podem até merecer transmissão pela televisão. O rei Salomão nos seus Provérbios já dizia que “como a neve no verão e como a chuva na colheita, a honra não convém ao insensato”. (26:1)

Quando se atribui aura de herói a pessoas que deveriam merecer a reprovação da sociedade, promove-se a glamourização desses estilos de vida em desacordo com a ordem social. Desestimula-se subliminarmente a prática da honestidade e da virtude, quando os holofotes da notoriedade são colocados sobre tais elementos. Sobretudo, quando tantos benfeitores, verdadeiros construtores do edifício do bem, da ordem e da justiça vivem e morrem no anonimato.

Crianças, adolescentes e jovens podem espelhar-se nesses exemplos que levam à idéia de que já vão longe os tempos em que integridade e decência davam notoriedade a alguém. Como as idéias podem ser rápida e subitamente transformadas em ação, tais insinuações são especialmente perigosas. Nada há mais contagioso que o exemplo.

O ponto crucial nessa influência é a mobilização de tendências imitadoras latentes, de maneira a ser copiado o exemplo apresentado. A provisão de exemplos inadequados prende-se ao subconsciente e é usada quase automaticamente para interpretar situações da vida real. A lição – um absurdo descaso pelos verdadeiros valores da vida – é mais evidente e mais depressa aprendida que as que são dadas pela educação formal. A inteligência humana, sobretudo nas primeiras fases da vida, deixa-se levar mais pelo exemplo do que pela admoestação..

A grande necessidade dos jovens hoje não é tanto de contato com o progresso tecnológico ou dos benefícios da ciência, mas de bons exemplos para imitar. Os maus exemplos, que no dizer de Montesquieu, são piores do que os crimes, não contribuirão em nada para a construção da sociedade. Preocupa-nos reconhecer que a mais fecunda semente, quer das virtudes quer dos vícios é o exemplo.

Marcos Osmar Schultz – Pastor, amigo e colaborador do Cada Dia

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Imagem de mhouge por Pixabay