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A síndrome do belo

É uma febre dos tempos modernos: todos precisam ser belos! Nunca se falou tanto de beleza e estética como hoje, nunca se valorizou tanto as formas e a imagem das pessoas e coisas.

Nas últimas décadas, a beleza era considerada a chave da felicidade, do sucesso e essa tendência vem crescendo a cada dia. Atualmente, o número de pessoas que são capazes de se submeter a uma cirurgia plástica é assustador, todas insatisfeitas com sua aparência e deprimidas com sua imagem.

Mas será que isso é verdade? Com certeza, a imagem é muito importante para compor uma personalidade, mas, acho que houve um erro de conceito. Em todas as imagens de revistas amplamente divulgadas dos indivíduos ANTES E DEPOIS, o que observamos em homens e mulheres são figuras desleixadas, mal arrumadas, corpos maltratados e rostos desvitalizados, que parecem que chegaram ao fundo do poço em todos os aspectos e que a única salvação é virar Barbie ou Ken.

O que chama a atenção é a urgência dessas pessoas em saírem dessa condição e do que elas são capazes para se transformar do dia para a noite. O que percebemos é que aquela figura que aparece no espelho não pode ser amada e logo cuidada e ela precisava ser destruída, alterada totalmente, para que o indivíduo, enfim, se goste e se respeite.

Estamos diante de um comportamento perigoso que pretende transformar todo o indivíduo utilizando um atalho que é a mudança de fora para dentro. Claro que esse é o jeito mais fácil de mostrar uma mudança, de impor um novo conceito para si, de alterar toda uma história física e até emocional, mas dependendo da quantidade de alterações feitas, em um curto espaço de tempo a estrutura psicoemocional do indivíduo pode não reconhecer a imagem no espelho e entrar em colapso. É a história da borboleta e da lagarta, enquanto lagarta nunca vai saber como será borboleta.

Desejar uma mudança radical não que dizer que se esteja preparado para ela. As mudanças devem ocorrer dentro de um processo que parte da estrutura emocional do individuo, que muda conceitos, que reconhece qualidades, que potencializa competências e altera hábitos que levaram aquele indivíduo a chegar onde está. Mas, como a lagarta que passa por um processo de transformação até se tornar borboleta, à maioria das pessoas não quer passar pelo processo e esperar o tempo das mudanças. Elas querem virar borboleta AGORA e partem para o RECORTA E COLA, menosprezando a própria história.

Quando falamos do erro de conceito, estamos falando dessa história. Mudar, melhorar, se cuidar, se arrumar e se divertir é como tomar banho, tem que acontecer todo dia para o bem da saúde do individuo e não de vez em quando.

Ser belo não é só fotografia, é atitude, é comportamento, conceito, postura, inteligência e caráter. Sem isso, a fotografia parece comprada e colada no álbum, sem muita referência, servindo somente para ocupar um lugar onde antes não havia nada de interessante e não quer dizer muita coisa.

Silvana Martani Psicóloga e Professora em São Paulo. Amiga e colaboradora do Cada Dia. Autora de artigos para revistas, jornais e do livro Uma Viagem para a Puberdade e Manual Teen, para orientação dos jovens.